Luiz Faustino — Estratégia, desenvolvimento e evolução de produtos digitais

O que a mente humana tem a ensinar a quem constrói produtos digitais

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11/09/2026

 

Você abre uma ferramenta para resolver uma coisa simples.

Antes de começar, aparece um aviso. Depois, uma atualização. Uma mensagem chega no canto da tela. Você fecha tudo, procura o que precisava e, por alguns segundos, tenta lembrar o que ia fazer.

 

O sistema está funcionando.

Ainda assim, usá-lo exige mais de você do que deveria.

 

É nesse espaço, entre uma ferramenta funcionar e uma pessoa conseguir usá-la bem, que acredito que precisamos olhar com mais atenção.

Quem trabalha com produto costuma discutir funcionalidades, prazos, resultados e facilidade de uso. Tudo isso importa. Mas há uma pergunta que merece participar dessas conversas:

 

Como a pessoa se sente enquanto tenta fazer o que precisa?

 

Pode estar confiante, confusa, pressionada ou cansada. Pode terminar uma tarefa com a sensação de que conseguiu resolver algo. Pode sair sem entender direito o que aconteceu.

Essas experiências também fazem parte do produto.


Tenho interesse em aproximar o que aprendemos sobre a mente das escolhas que fazemos ao construir tecnologia.

 

Essa aproximação começa em situações pequenas.

Uma mensagem de erro que explica como seguir. Um formulário que preserva o que já foi preenchido. Um aviso que pode esperar. Uma ação que permite voltar atrás.

Imagine preencher uma solicitação longa e descobrir, no final, que alguma informação está incorreta. A tela mostra apenas: “Não foi possível concluir”.

Você precisa descobrir onde errou, se os dados foram salvos e o que fazer em seguida.

Agora imagine que a mensagem aponte o campo, explique o problema e mantenha o restante preenchido.

A diferença aparece no esforço necessário para continuar. Também pode aparecer na confiança que você sente ao usar aquela ferramenta novamente.

 

É por isso que considero importante levar atenção, compreensão e autonomia para dentro das decisões de produto.

Há pesquisas que ajudam a organizar esse olhar. Um modelo desenvolvido por Dorian Peters, Rafael Calvo e Richard Ryan propõe avaliar como a tecnologia apoia necessidades psicológicas, como sentir que temos escolha, que somos capazes de realizar algo e que estamos conectados a outras pessoas. Essa perspectiva amplia a avaliação para além da interação com a tela. Pesquisa publicada em 2018.

 

Na prática, isso nos convida a observar a vida em volta do uso.

A pessoa conseguiu resolver seu problema? Entendeu o que fez? Teve espaço para escolher? Conseguiu encerrar a atividade e seguir o dia?


Pense nas notificações.

Cada equipe pode ter um bom motivo para enviar a sua. Uma atualização relevante, uma pendência, uma nova mensagem.

Quem recebe encontra todas elas no mesmo dia, misturadas ao trabalho e ao restante da vida.

Por isso, decidir quando interromper alguém merece tanto cuidado quanto decidir o conteúdo do aviso.

 

Um experimento com 237 participantes investigou diferentes formas de entregar notificações. Recebê-las agrupadas em três momentos do dia trouxe benefícios em alguns indicadores de bem-estar. Desligá-las completamente teve outros efeitos, incluindo maior ansiedade e medo de perder informações. Estudo de Fitz e colaboradores, publicado em 2019.

Esse resultado pede cuidado com respostas prontas.

Uma mudança aparentemente simples pode ajudar em uma situação e atrapalhar em outra. Precisamos conhecer as pessoas, compreender suas necessidades e observar o que acontece depois das nossas escolhas.


Também precisamos conversar sobre o que chamamos de sucesso.

 

Uma pessoa passar mais tempo em um aplicativo pode significar que encontrou algo valioso. Pode significar que teve dificuldade para terminar.

Voltar várias vezes pode indicar interesse. Também pode indicar dúvida sobre uma solicitação que continua sem resposta.

O número sozinho deixa parte da história de fora.

 

Eu gostaria de ver mais equipes perguntando se as pessoas conseguem concluir uma tarefa com clareza, quanto esforço precisam fazer e se sentem que têm controle sobre o processo.

Essas perguntas podem orientar decisões muito concretas: simplificar uma etapa, explicar uma consequência, permitir corrigir uma ação ou tornar uma espera compreensível.

É aí que vejo uma contribuição possível para quem trabalha com produto: transformar conhecimento sobre as pessoas em escolhas que possam ser observadas, discutidas e melhoradas.


A relação entre tecnologia e saúde mental exige responsabilidade.

 

Uma experiência agradável, por si só, não demonstra melhora clínica. E uma interface não explica tudo o que uma pessoa sente.

Ainda assim, podemos examinar a parcela da experiência que está sob nossa responsabilidade.

O aviso que interrompe. A cobrança que se repete. A informação que falta. A escolha que fica escondida.

Podemos começar por uma tela, uma mensagem, um fluxo.

E acompanhar alguém usando aquilo, com tempo suficiente para perceber as hesitações e ouvir o que os números não contam.

Na próxima vez que observar uma pessoa usando seu produto, repare no momento em que ela para.

Pode haver ali uma dúvida que você consegue esclarecer, uma decisão que precisa explicar ou um esforço que o produto poderia poupar.

 

FAUSTINO L. G.

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